“Existem muitas diferenças nas ações de eficiência energética dos países latino americanos”, diz representante da CEPAL

Fonte: Procel Info

Por: Tiago Reis

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Em entrevista ao Procel Info, Andrés Schuschny, coordenador geral da Divisão de Recursos Naturais, Infraestrutura e Energia da CEPAL, fala sobre as ações desenvolvidas na América Latina para monitorar os níveis de eficiência energética em cada país

As diversas formas de monitorar os índices de eficiência energética foram debatidos no Rio de Janeiro durante o segundo encontro regional do Programa BIEE (Base de Indicadores de Eficiência Energética). Realizado entre os dias 26 a 28 de agosto, na sede da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o encontro contou com a participação de 27 nacionalidades latino-americanas e de representantes de organismos internacionais como a ADEME (Agência de Meio Ambiente e energia da França), Agência de Cooperação alemã (GIZ), OLADE (Organização Latino Americana de Energia), Banco Mundial, BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e o Ministério de Minas e Energia do Brasil.

Organizado pela CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), órgão das Nações Unidas destinado a incentivar a cooperação econômica entre os seus membros, o encontro também discutiu as propostas de promoção da eficiência energética em toda a região além de compartilhar o conhecimento técnico entre os países para aumentar as formas de tornar mais eficiente o uso da energia elétrica e mensurar esses dados. Durante o encontro, Argentina, Brasil, Chile, Nicarágua e Uruguai, apresentaram os seus relatórios de monitoramento da Eficiência Energética e compartilharam esses dados com os demais países com o objetivo de sinalizar as melhores formas de se ampliar os índices de eficiência energética.

Em conversa com a reportagem do Procel Info, o coordenador geral da Divisão de Recursos Naturais, Infraestrutura e Energia da CEPAL, Andrés Schuschny (foto), avaliou os resultados do encontro e fez uma análise do que deve ser feito para ampliar a eficiência energética em todo o continente latino-americano. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Procel Info: Qual foi o objetivo da realização deste encontro do Programa BIEE no Brasil?

Andrés Schuschny: A reunião é um encontro regional de toda a América Latina e Caribe do Programa BIEE (Base de Indicadores de Eficiência Energética) realizado anualmente em um país membro da CEPAL. Nós do CEPAL, com a colaboração da ADEME, que é uma agência francesa da matriz energética e meio ambiente, estamos fazendo este projeto que procura capacitar as pessoas encarregadas do monitoramento e medição da eficiência energética em diversos níveis de direção de governos. Essa medição se dá por meio da construção de uma base de dados e indicadores de eficiência energética e sua capacidade de análise para monitorar a evolução. Também analisamos a correlação e as tendências da eficiência energética, do consumo energético e da atividade econômica com as políticas de promoção da eficiência energética.

Procel Info: Então, alcance do programa é toda a América Latina?

Andrés Schuschny: Neste momento são 27 países de toda a América Latina, inclusive Cuba, República Dominicana, no Caribe. Nós esperamos, nos próximos anos, incorporar os países do Caribe inglês. Países como a Jamaica, Trinidad e Tobago, como Barbados, como Aruba, mas agora estamos mais focados na América Latina com todos os países de língua espanhola e portuguesa participando do programa.

Procel Info: Existe muita diferença entre os programas de eficiência energética dos países latino americanos? O Brasil, por exemplo, possui um grande programa nessa área que é o Procel, uma referência internacional em programas de eficiência energética. Nos demais países existem programas semelhantes ou a disparidade entre eles é muito grande?

Andrés Schuschny: Existe sim muita diferença entre os países. Brasil é um país muito grande, como também é o México. Nesses países existem programas em múltiplas áreas, como transportes, setor elétrico, petróleo, setor residencial. Existem diversos programas que incentivam a substituição de equipamentos pouco eficientes e a inclusão de etiquetas para mostrar quais são os eletrodomésticos mais eficientes. E existem países também como o Paraguai, que tem uma matriz energética muito eletrificada. Eles são exportadores de energia elétrica, com Itaipu, por exemplo. Então, nesse tipo de país a eficiência energética não é uma prioridade. Mas agora, com o fenômeno da mudança climática, eles têm que procurar a redução de emissões e a melhor forma de mitigar os efeitos da mudança climática é através da eficiência energética, mais até do a introdução de energias renováveis não convencionais. Promover a eficiência energética é muito importante e para fazer essa promoção nós necessitamos formular políticas sobre bases informadas. Nós necessitamos de indicadores, nós necessitados de que as pessoas que trabalham diretamente com a eficiência energética possam monitorar e entender todo o processo. Isso, certamente vai fazer com que seja gerado um aumento da intensidade da eficiência energética em diversos níveis setoriais.

Procel Info: Ainda existem muitas dificuldades em implementar os programas de eficiência energética nos países latino americanos?

Andrés Schuschny: Depende do tipo de política. Muitas vezes tem que passar pelos programas educativos e de conscientização para promover a mudança de hábitos. Também os programas de etiquetagem e substituição de equipamentos contribuem bastante para fomentar a eficiência energética. Muitas vezes, as pessoas compram equipamentos muito mais em razão do preço do que da eficiência. Muitos países ainda precisam buscar financiamentos externos para implementar esses programas. Mas atualmente, nós estamos promovendo a introdução de Escos, que são empresas de serviços energéticos, que se associam, por exemplo, a empresas do ramo industrial para substituir grandes geradores ou sistemas de refrigeração e facilitar créditos e financiamentos que podem ser pagos com a economia de energia gerada por esses programas de eficiência. Em alguns países ainda existem problemas com o financiamento, mas existem organismos internacionais que facilitam a obtenção desses recursos, mas também é necessário procurar capacitação e aumentar a consciência da população para os resultados aparecerem.

Procel Info: O senhor falou sobre as linhas de financiamento. Hoje, essas linhas de financiamento são majoritariamente ligadas a grandes organizações internacionais. É possível ampliar essas linhas de financiamento para que esses programas de eficiência energética possam ser implementados com mais facilidade?

Andrés Schuschny: Sim é possível. Por exemplo, no setor industrial, que é muito importante e consumidor de energia de forma intensa, se nós facilitarmos uma maior conscientização dos empresários para fazer uma associação com Escos e com empresas de serviço energético para substituir grandes equipamentos consumidores de energia, certamente os níveis de eficiência energética aumentarão. Também os governos, por exemplo, podem promover a eficiência nos edifícios públicos, na iluminação pública e investindo mais na instalação de lâmpadas eficientes, como as de LED. Isso é uma coisa que você pouco a pouco vai melhorando e promovendo. Por isso, temos que formular políticas nessa área, mas as políticas somente não servem. As políticas públicas também devem ser acompanhadas de uma mudança de consciência e conhecimento dos benefícios. Se uma empresa substitui os seus equipamentos por outros mais eficientes e isso vai gerar uma economia de energia, o investimento nessa substituição pode ser conveniente do ponto de vista econômico. Existem ações, mas também existe a consciência e a mudança de hábitos. A tomada de decisões em investir em eficiência energética é algo que se vai fazendo pouco a pouco e a medida em que há mais consciência de que isso pode significar uma economia de energia e proporcionar ganhos econômicos, as empresas e as pessoas passam a comprar mais equipamentos eficientes e investir os seus recursos na substituição.

Procel Info: Esta reunião do Programa BIEE contou com a participação da ADEME. Como se dá essa parceria e como essa agência francesa contribui com a CEPAL para aumentar a eficiência energética na América Latina?

Andrés Schuschny: A ADEME é a agência europeia encarregada de monitorar a eficiência energética, por meio de indicadores, em toda a Europa. Vinte e sete países são monitorados, incluindo os países do leste europeu. Esta experiência é a mais importante do mundo no monitoramento da eficiência energética. O que nós buscamos nessa parceria com a ADEME é trazer essa experiência e adaptá-la ao contexto da América Latina e Caribe aproveitando todo esse conhecimento de mais de vinte anos de monitoramento da eficiência energética. Nós agora estamos praticando isto na América Latina com o conhecimento que eles possuem.

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Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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