É muito importante haver a crise de energia para repensarmos o futuro, afirma o professor Claudio Lima

Fonte: Diário do Sudoeste

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Doutor em engenharia eletrônica pela Universidade de Kent, Inglaterra, Claudio Ribeiro Lima coordena o Programa Brasileiro de Redes Elétricas Inteligentes, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), conhecido como “smart grid brasileiro”, e é coordenador de um projeto da Agência Nacional de Desenvolvimento Industrial (ABDI) que ajuda o governo a desenvolver projetos de energias renováveis, linhas inteligentes, entre outros.

Ele foi vice-presidente e um dos autores do primeiro padrão internacional de smart grid (redes elétricas inteligentes), implantado em 2010, colaborou na idealização do smart grid europeu, e orientou o plano estratégico do smart grid do governo Barack Obama, nos Estados Unidos, onde fez parte de comitês de gestão e arquitetura de sistemas avançados.

O foco da sua palestra são as oportunidades abertas pela crise energética. Por que esse enfoque?

É uma palestra que visa informar aos empresários, municípios e poder público, o momento pelo qual estamos passando no Brasil, das crises hídricas e energéticas. E ao invés de olhar pelo sentido negativo, pelo sentido da oportunidade. Hoje o Brasil passa por essa revisão de conceitos, e é muito importante que haja essas crises para a gente repensar o futuro.

Eu tenho falado com várias pessoas aqui no Brasil, e eu vejo isso de forma positiva, porque as pessoas, inclusive nós como cidadãos, têm que repensar o uso da energia e da parte hídrica.

As pessoas já estão pensando em fazer melhorias nas residências, para coletar água, melhorar o processo energético. Esse é um ponto de vista muito positivo, porque, mesmo que volte o nível das reservas, e tudo volte ao normal, o importante é que haja essa mudança de hábito. Porque os recursos são limitados, e precisamos preservá-los.

Eu não falaria em economizar, mas otimizar de forma inteligente o que nós temos. Otimizar é a palavra.

E quando se fala em otimizar o uso de energia, quais são as tendências hoje?

Hoje temos duas tendências. Primeiro, o modelo que nós temos hoje não vai vingar mais: é o modelo centralizado de distribuição energética. Tanto o hídrico quanto o energético. A ideia hoje é descentralizar. Distribuir e atuar no centro de consumo. Ou seja, se eu consumo no local, eu gero no local. Porque hoje nós temos geração centralizada, e tem as linhas de distribuição ligando aos centros de consumo. Hoje podemos abordar redução de custos e inclusive melhorias para que a população e o industrial possam gerar sua energia no próprio local de consumo, próximo das cidades.

Exemplos disso são os aterros sanitários, que têm um passivo ambiental incrível. Mas se olhados por outro lado, são uma oportunidade muito boa para as prefeituras capitalizarem um recurso energético que está à sua disposição.

Basta apenas saber o que fazer, e fazer bem feito. E mesmo uma indústria de processamento, uma cooperativa, um laticínio, uma fecularia, um frigorífico, um aviário. Tudo o que hoje tem dejetos e passivos ambientais, que são lixos orgânicos e afluentes, isso pode se tornar um potencial ativo energético, através da geração de biogás, que pode ser usado no processo térmico.

O biogás pode retirar um pouco do custo da lenha, que vai nos fornos das usinas térmicas, e pode também, através de motores acoplados, gerar energia elétrica e suprir parte da necessidade da indústria. Então todos esses aspectos precisam ser repensados e planejados na nossa economia.

E qual é a segunda tendência?

Também muito importante é [o controle da] eficiência energética. Ou seja, o gasto, a demanda do consumidor. A eficiência energética tem se mostrado muito interessante para as indústrias, que hoje recebem a conta no final do mês e não sabem o que gastaram. Importante estar ativamente monitorando. E só ao olhar esse consumo, existe uma estatística que fala que o consumo de energia diminui entre 10% e 15%, só de monitorar o gasto de ligar um ar-condicionado, o ciclo de descongelamento da geladeira, mudar esse ciclo para um horário mais barato. Vamos ter bandeiras tarifárias – vamos ser penalizados se usarmos muita energia em determinadas horas do dia. Então as bandeiras tarifárias vão mudar o hábito de uso da energia.

Por isso, o processo que controla e monitora isso é muito importante, pelo fato de a crise energética ser um dos temas mais vistos. Não só a geração, mas a eficiência. Os dois são motivos de políticas públicas.

Aqui no Sudoeste do Paraná, existem outras nuances que podem ser exploradas, dentro do nosso tipo de produção, da nossa matriz energética?

Sim. O que a gente comenta é que algumas regiões são ricas em energia. Por exemplo, têm um potencial hídrico imenso. Só que infelizmente a energia não fica na região. Ela entra no leão [o Sistema Elétrico Nacional], e vai para os centros de consumo.

Então você é rico em energia, mas pobre na recepção de parte dessa energia, e você termina tendo deficiências na parte de investimento, na questão de quedas de rede quando a demanda é muito alta, tem perdas industriais – morrem frangos, por exemplo. E tudo isso pode ser resolvido com a geração local. Uma parte da energia pode ser gerada localmente, o que não é feito hoje.

Hoje, o Ministério de Minas e Energia e a Aneel já se preocupam com isso, e já tem regulações indo nesse sentido, para facilitar que qualquer um de nós consumidores, quer seja residencial ou industrial, gere sua própria energia de forma regulada pela lei, pelo marco regulatório da Aneel. Isso já é possível.

Como eu posso trabalhar isso? O que eu posso fazer em casa, no cotidiano, para otimizar o uso de energia, e até gerando alguma coisa no meu local de moradia?

São dois lados nesse sentido. Do lado da geração, podemos gerar a própria energia através de placas fotovoltaicas. Ou em uma pequena indústria ou comércio, eu posso gerar energia térmica, que move um motor gerando energia elétrica, ou uma pequena turbina eólica, ou usando biogás. Mas, lógico, cada uma dessas tecnologias tem um custo, e um tempo para entrar no mercado. Eu diria que o grande ‘bum’ esse ano vai ser na célula fotovoltaica, porque os preços estão caindo, e o preço energético na nossa conta tem aumento entre 30% a 40%. Pode chegar num modelo interessante de paridade tarifária, a que os países desenvolvidos, como a Alemanha, chegaram. Então isso é um potencial.

E em grande escala? O que é possível fazer para aperfeiçoar o uso de energia nas indústrias, por exemplo?

Aqui nós somos ricos em PCHs [Pequenas Centrais Hidrelétricas] e UHEs [Usinas Hidrelétricas] pelo potencial hídrico. Temos também a questão das eólicas aqui em Palmas. Então em grande escala essas usinas seriam a melhor resposta. A usina solar, também. Mas do ponto de vista das indústrias eu diria que, ao fazer essas pequenas medidas de otimização, como a eficiência energética, você vai ver que vai afetar significativamente o custo final.

Então, é importante iniciar. Já tem alguns modelos econômicos, e a tendência é que sejam mais e mais implementados. A Califórnia, que implantou um belo programa de eficiência energética, tem hoje um dos melhores resultados no mundo de redução de consumo de energia. É um programa muito bem sucedido. Na Europa também já tem. E o Brasil precisa logo iniciar. Acho que temos que perder aquela noção de que temos que só gastar, e não pensar em otimizar.

Eu não gosto da palavra economizar. A melhor palavra é otimizar, usar de forma inteligente. E hoje não temos isso. Temos ainda muitos gastos, porque não temos essa consciência. E essa consciência vem através de crises, que são muito boas para a gente repensar o nosso modelo.

A crise pode nos levar a uma nova direção em relação à geração e consumo?

Certamente. Toda crise tem seu lado bom. Então temos que ver o lado bom: não só os que usam, mas os investidores, as pessoas que querem novos modelos de negócio, abraçar novos mercados abertos nessa linha.

É possível que, com essa crise, o Brasil mude sua matriz energética e seu modelo de distribuição?

Eu diria que haverá uma quebra de paradigma. O modelo brasileiro foi pensado nos anos 1970, na época em que foram construídas as grandes usinas. Então agora isso começa a ser repensado nos ministérios, no próprio Ministério de Minas e Energia e Aneel. Não vamos substituir 100% [da matriz energética], lógico. Esse não é o caso.

Mas vamos repor por outras fontes não atrites. Então temos o eólico, que é uma fonte já madura, mas que ainda é uma matriz muito pequena em relação ao todo. O biogás está iniciando, assim como a energia solar e a fotovoltaica. Então eu diria que sim. Certamente essas outras fontes vão fazer parte do mix, como acontece em outras nações. E o Brasil vai aumentar o número de fontes de energia.

Qual é a importância desse tipo de debate, como o seu workshop, com empresários e entidades?

Eu classifico esse tipo de evento com uma evangelização, ou seja, disseminar a informação que temos. As pessoas têm interesse, conhecimento, mas não têm os detalhes do que precisa ser feito. Então, como eu tenho inserções nacionais e internacionais, sei o que está acontecendo, e posso então passar algumas mensagens do que pode ser feito, e está sendo bem-sucedido.

Assim os empresários da região podem ficar cientes do que existe e do que pode ser feito. Tem muita coisa a ser feita.

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Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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