Parque eólico milionário que aliviaria a demanda por energia em Minas está abandonado

Fonte: Estado de Minas

Por: Mateus Parreiras

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Erguidas no sertão baiano a 100 metros de altura, 30 torres com turbinas de vento para gerar energia elétrica se tornaram grandes guarda-sóis para aplacar o calor de rebanhos de cabras. As estruturas monumentais com hélices metálicas gigantescas são parte do Parque Eólico de Casa Nova, no Norte da Bahia. Deveriam ter começado a gerar eletricidade há dois anos, mas nunca deram sequer um giro completo. Um monumento ao desperdício de dinheiro público, que, quando começou a ser implantado, chegou a ser louvado por ambientalistas e por integrantes do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF). Representariam, acreditava-se então, menor dependência do setor elétrico em relação aos reservatórios – já que o modelo atual tem obrigado o Rio da Integração Nacional a conviver com alternâncias de vazões que prejudicam os demais usos, como a irrigação, a piscicultura, o abastecimento humano e de rebanhos.
O investimento até então foi de R$ 240 milhões e o valor do contrato, de R$ 635,4 milhões, mas, devido a uma série de erros, atrasos em cumprimento de licenças e à falência de empresas que deveriam construir a planta para a Companhia de Hidro Eletricidade do São Francisco (Chesf), nenhum funcionário trabalha mais na estrutura. Os equipamentos que seriam usados para implantar as torres, geradores, linhas de alta tensão e estações ficaram abandonados no meio do sertão. Nas caixas de madeira, o pó e a umidade trouxeram ferrugem a equipamentos elétricos. Cabos de aço, vergalhões e bobinas também sofrem com a exposição ao tempo. Tudo espalhado em cinco canteiros de obra abandonados, entre torres de mistura de concreto e moldes vazios. Apenas um segurança solitário vigia o patrimônio esquecido, sendo substituído a cada 12 horas por um companheiro. Mas ambos dizem que não há mais perigo de furto, porque por aquelas estradas hoje só passam bodes, pescadores e colonos.
A grande ironia é que o Parque Eólico de Casa Nova foi instalado próximo ao Lago de Sobradinho. Este, para manter funcionando as turbinas, que têm potência instalada de 1.050 megawatts, chegou a baixar ao nível útil em 17,8% neste ano. Atualmente, opera com média de 22% da capacidade. A seca é tanta que as águas do lago recuaram mais de cinco quilômetros, afastando-se das torres de geração que ficavam praticamente à beira da represa. Do outro lado do espelho d’água, é possível ver outro parque eólico, o de Sobradinho, onde as hélices giram e produzem energia elétrica.

Os parques de Sobradinho e Casa Nova, em conjunto com o de Sento Sé, constituem um dos maiores complexos de geração de energia eólica do Brasil, que deveria contar com 120 torres e gerar até 180 megawatts, o que daria para atender a uma cidade com 600 mil habitantes – maior que Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, que tem 550 mil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Baiano de Casa Nova, Fábio dos Reis, de 37 anos, foi um dos operários que trabalharam na construção do parque eólico hoje inoperante. Ele conta que, no início, parecia que as oportunidades finalmente estavam chegando por aquelas bandas, onde só moravam donos de roças humildes e criadores de cabras. “Uma porção de gente se interessou, porque as companhias que estavam construindo a planta alugavam pequenos terrenos e pagavam por mês para que a torre ficasse lá. Mas a obra atrasou pagamento. Fizemos até greve, só que as empreiteiras resolveram tirar os engenheiros. Ficou tudo abandonado”, conta.

MUDANÇA INDISPENSÁVEL 

Na avaliação do coordenador do Projeto Manuelzão,  Marcus Vinícius Polignano – responsável pelo programa de revitalização do Rio das Velhas, localizado em Minas Gerais e um dos principais afluentes do Rio São Francisco – o paque eólico abandonado é mais um caso de boa iniciativa que não tem execução bem feita. “É, literalmente, mais um caso de dinheiro público jogado ao vento. Quantas obras assim, pulverizadas e feitas sem qualquer planejamento sequencial, vemos pelo Rio São Francisco? Uma usina dessas beneficiaria não apenas a Bahia, mas toda a bacia hidrográfica. Seria um alívio para o rio”, lamenta. O lago de Três Marias, na Região Central de Minas, também gera eletricidade, mas sua principal função tem sido manter o fluxo de água para Sobradinho. O reservatório chegou a 2,8% de seu volume útil em outubro do ano passado e neste mês está em 37%.

O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, Anivaldo Miranda, afirma que, para que o rio atravesse a seca de 2015 e supere outros desafios, é imprescindível que o setor elétrico passe por “uma mudança de postura”. Para ele, o Velho Chico não tem mais como sustentar a geração de energia e essa atividade, por si só, vem reduzindo a vazão do manancial, o que afeta a própria produção de energia. “A mudança é necessária. E deve ser uma mudança de modelo, seja usando formas alternativas de eletricidade, como a biomassa, os espelhos solares, neste que é um dos países com maior incidência solar do mundo, ou a energia eólica”, disse.

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Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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