Brasil enfrenta obstáculos para a reindustrialização

Fonte: Valor Online

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Os EUA estão vivendo um forte processo de reindustrialização no qual estão aprendendo a ser competitivos em relação aos asiáticos, mas isso não significa que países como a China estão fora do jogo em que automação e novas tecnologias dão as cartas, afirmam especialistas. Já outros emergentes, como o Brasil, até podem ser beneficiados pela desvalorização de suas moedas, mas correm o risco de ficar de fora do processo se não solucionarem velhas questões, como o forte protecionismo ou ambiente de negócios pouco competitivo.

Os chineses têm vastos recursos à disposição e estão emitindo fortes sinais de que não querem ser apenas produtores, mas também inovadores, diz o vice-presidente da área de automação industrial da Siemens, Alf Hufstetler. “Nunca acharia que a China está fora do jogo. Ela vai sempre ser importante à economia americana, assim como Indonésia, Coreia do Sul e até mesmo Brasil”, diz o executivo. Nesse movimento de reindustrialização focado em investimentos em tecnologia e inovação, Hufstetler avalia que mesmo o Brasil tem meios de não ser deixado para trás. “A oportunidade de ter projetos mais conectados à indústria 4.0 é bastante real”, afirma o executivo, ao ressaltar que algumas das maiores companhias automobilísticas do mundo produzem no Brasil.

Para o presidente da consultoria americana ITR Economics, Brian Beaulieu, a revitalização da indústria americana tem como um dos focos estratégicos o mercado externo, mas a expectativa de que o dólar se mantenha valorizado pode criar vantagens para países como o Brasil. “O Brasil e também outros países podem se aproveitar dos ventos contrários para os EUA vindos da moeda forte”, diz Beaulieu. Para isso, diz ele, o país precisaria melhorar o seu ambiente de negócios, com uma maior colaboração entre o Norte e o Sul. Com exceções de alguns setores, como o agronegócio, a baixa produtividade é vista como um problema, assim como o forte protecionismo do mercado, incluindo a própria indústria automotiva do Brasil. “Crescimento, qualidade e vendas produzem postos de trabalho, não o protecionismo que não funciona”, diz Hufstetler, da Siemens.

Dados da Eurostat de 2013 sobre o Produto Interno Bruto (PIB) gerado por hora trabalhada mostram que, enquanto nos EUA e na Alemanha esse índice é de, respectivamente, US$ 67 e US$ 57, ele cai para US$ 19 por hora no México e apenas US$ 10 por hora no Brasil. Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília (UnB) que tem se dedicado a temas como competitividade, produtividade, inovação e tecnologia, diz que há uma conjunção de fatores que tem feito com que produzir não só nos EUA, mas também na Alemanha e em outros países industrializados, esteja se tornando algo mais barato do que produzir na China e outros emergentes. “Há uma mudança tecnológica que envolve a internet das coisas, robôs, impressoras 3D, dentre outras novas tecnologias que, em conjunto, permitem que produtos industriais sejam produzidos por um custo muito mais barato do que usando tecnologias convencionais”, diz. Ele lembra que, nos EUA, o Partido Democrata sempre teve simpatia pela agenda da reindustrialização, mas ela ganhou novo sentido com a sofisticação tecnológica. “Ao buscar revitalizar a indústria americana, o presidente [Barack] Obama estava pensando basicamente na necessidade de criação de empregos, mas conseguiu mais do que isso, houve criação de valor.”

Menos otimista do que os executivos americanos, o professor de economia da UnB avalia que o Brasil ainda está muito focado em uma agenda de custos voltada para questões como infraestrutura, logística ou impostos. “Estamos pensando em nos tornar mais competitivos via custos, mas a indústria do século XXI vai muito além”, diz. A competitividade global, afirma, envolve hoje agregação de valor e diferenciação de produtos. “O consumo é global e ditado por quem inova.” Para Arbache, o Brasil está totalmente fora dessa agenda e, na melhor das hipóteses, se dispõe a discutir produtividade do ponto de vista mais convencional possível. Segundo ele, é preciso ter claro que, na “economia do século XXI”, os custos sempre serão importantes, mas seu peso relativo está em queda. “A indústria 4.0 não é indústria de custo baixo, mas de alta agregação de valor.”

Para ele, o peso todo deixa de ser colocado nas diferenças entre o custo do trabalho entre países, ganhando cada vez mais importância outros condicionantes que vão fazer a produção mais ágil e competitiva. “Daí uma parte importante da volta das fábricas para os EUA”, diz. “Se nada fizermos, vamos nos ver na contingência de passar a importar coisas industrializadas dos EUA.”

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Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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