Eduardo Braga, do MME: governo projeta redução de 5% no consumo este ano

Fonte: Canal Energia

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O governo federal trabalha com a perspectiva de que o consumo de energia tome o sentido contrário dos últimos anos. A tendência que é esperada no Planalto é de redução da demanda em função das diversas medidas que vêm sendo tomadas e que estão impactando o custo da energia, no que se convencionou a ser chamado de realismo tarifário. Esta bandeira foi adotada neste ano para combater as dificuldades das distribuidoras e as contas do governo por meio do ajuste fiscal.

O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, acredita que essa redução chegue a 5% em 2015. Ele revelou esta estimativa em uma entrevista exclusiva concedida à Agência CanalEnergia, em São Paulo. Braga abordou ainda a situação dos contratos da Chesf com consumidores eletrointensivos no Nordeste que se encerram em alguns meses e as medidas que o governo vem tomando para mitigar os impactos dos atrasos das obras do setor elétrico. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Agência Canal Energia: O Sr. foi o primeiro a admitir publicamente que seria necessário um programa de racionalização de energia. Com quais cenários o governo trabalha para evitar um problema de abastecimento? E qual é o pensamento se houver a piora desse quadro?

Eduardo Braga: Estamos trabalhando com vários cenários, portanto, nós temos que ter sempre em mente que ninguém quer o racionamento, temos que trabalhar intensamente para que isso não aconteça. Esse é o nosso objetivo. Mas vivemos um desafio de estarmos na maior crise hídrica da nossa história dos últimos 100 anos na região Sudeste e uma das piores no Nordeste. Ao mesmo tempo, além da crise hídrica, estamos vindo de três anos ruins. Se analisarmos os biênios 2012/2013, 2013/2014 e 2014/2015 são sequências de ritmo hidrológico ruim. Agora, o nosso sistema efetivamente ficou mais robusto nos últimos anos, saímos de 5 mil MW de térmicas para 23 mil MW, o sistema interligou-se, diversas bacias hidrológicas estão interligadas e, portanto, temos como administrar e gerenciar a manobra de um setor elétrico que é mais diverso e mais interligado. Mas, temos que ter a consciência de que precisamos ter, de qualquer forma, por parte do consumidor, uma atitude de não desperdiçar energia, de fazer o uso consciente desse bem que é a energia e que é caro. Estamos com energia cara e começamos hoje uma campanha da Abradee de uso mais racional, mais inteligente da energia, explicando o regime das bandeiras. E a partir do dia 10 deste mês iniciaremos uma campanha do governo federal do uso consciente da energia.

Agência Canal Energia: Essa é a resposta ao que o setor já vem defendendo há mais de um ano: de que é necessária uma campanha para a racionalização do uso da energia?

Eduardo Braga: Nossa campanha é fruto de um estudo e de um diagnóstico que a gente vem falando desde o início de nossa chegada ao governo e de que em 90 dias teríamos um estudo profundo e com diagnósticos claros sobre os diversos setores e que apresentaríamos uma série de ações para mitigar uma série de desafios que teríamos. A campanha não é um passo isolado, foi precedida de uma portaria do Ministério do Planejamento no combate ao desperdício dentro dos prédios públicos e vamos lançar agora no mês de março uma campanha do ministério de eficiência energética predial e também de um Procel turbinado, ampliado e fortalecido, na qual estamos trabalhando. Essa campanha faz parte dessa ação. Acho que o realismo tarifário ajudará também as pessoas a prestar atenção no desperdício de energia. E nosso objetivo é ter uma redução de consumo importante.

Agência Canal Energia: Qual é essa projeção de consumo de energia que o governo trabalha?

Eduardo Braga: Tivemos uma projeção do ano passado, para o planejamento de 2015, de 65.700 MW médios para 2015 com sobra de 7.200 MW médios estruturais. No entanto, sabemos e a própria EPE identifica que o indicativo macroeconômico é de que não teremos esse consumo, estamos trabalhando com um consumo menor. Teremos uma redução de consumo esse ano, pelo menos é o que aponta os estudos macroeconômicos da EPE e trabalhamos com o número na faixa entre 62 mil MW médios a 63 mil MW médios. Em 2014, tivemos quase 65 mil MW médios, estávamos imaginando que seria quase 66 mil MW médios e a gente acha que hoje os estudos indicam para uma redução para 63 mil MW médios, que seria uma redução de algo como 5% mais ou menos no consumo.

Agência Canal Energia: Um dos assuntos que vem preocupando os consumidores eletrointensivos no Nordeste é o vencimento dos contratos da Chesf, que somam cerca de 800 MW médios. A renovação desses contratos foi vetada, mas o governo sinalizou que procuraria auxiliar esses consumidores na busca por alternativas competitivas. Como está esse assunto?

Eduardo Braga: Na realidade eles têm 600 MW médios e querem 800 MW médios, tem um déficit de 200 MW médios, mas é preciso que eles entendam que tem que ter uma contrapartida. Sobre o assunto temos um estudo em andamento, já realizamos três reuniões setoriais sobre o tema. Nesse momento há um grupo do MME trabalhando com representantes do setor e a Chesf para chegarmos a uma proposta a ser avaliada. É possível, em nossa visão, construir um programa de investimento no Nordeste, fruto de um funding que poderíamos construir com esse setor privado e podendo alavancar esse funding. Nosso objetivo é de chegar a um volume de investimentos da ordem de R$ 34 bilhões em geração, transmissão, subtransmissão e subestação até as redes de 69kV que abastecem esses consumidores eletrointensivos.

Agência Canal Energia: Esses empreendimentos seriam exclusivos para atender a esses consumidores?

Eduardo Braga: Não, o objetivo é ter um plano de investimentos. Estamos construindo isso para levar à apreciação da presidenta. Numa relação de cada megawatt subsidiado para o setor eletointensivo podemos produzir 100 MW para o universo a ser atendido.

Agência Canal Energia: Mas esses contratos vencem agora em meados de 2015. Onde as empresas buscarão essa alternativa?

Eduardo Braga: Até o meio do ano devemos ter uma alternativa sim. O que queremos é construir esse modelo que estou te falando.

Agência Canal Energia: O relatório de fiscalização de obras da Aneel aponta que há muitos empreendimentos em atraso. No segmento de termelétricas são 87% da capacidade instalada fiscalizada. Com esse cenário dos últimos anos, o governo tem avaliado alguma medida para reduzir o impacto desses atrasos?

Eduardo Braga: Sim. O governo está selecionando o que é obra prioritária, estruturante e fundamental/essencial e dividindo isso em duas categorias: as de curto prazo e as de médio prazo. Curto prazo para nós é 2015 e de médio é 2016. E estamos deixando um terceiro segmento de obras, olhando para o futuro, onde vamos trabalhar mais intensamente daqui a 90 dias, quando algumas coisas estarão equacionadas. A exemplo do que fizemos com as distribuidoras, teremos que ter também uma equação com as geradoras e assim sucessivamente. Entre as prioritárias temos 18 obras no que chamamos de fast track, um atalho, que estamos criando para recuperar o prazo desses atrasos das obras. Entre eles o linhão de Teles Pires, que é extremamente importante e precisa estar no fast track, o bipolo do Madeira, que já está em testes desde o dia 20 sob regime de carga e esperamos estar com ele em pleno funcionamento até final de abril.

Neste ano no Brasil teremos 6.400 MW de energia nova que entrarão e vários de geração nesse fast track. Temos essa meta. Neste ano já entrou quase 1 mil MW e o saldo ainda é de mais de 5 mil MW para o final do ano. Estamos correndo firme para alcançar essa meta e que terá ainda 7 mil quilômetros de linhas de transmissão.

Agência Canal Energia: Há receio de que a Operação Lava Jato possa atrapalhar o andamento dessas obras, já que diversas empreiteiras estão sendo investigadas?

Eduardo Braga: Por enquanto ainda não, torcemos que não. Agora não podemos, nessa questão, ficar no campo da hipótese, não existe o “se”, nesse caso temos que aguardar. Estamos fazendo a nossa parte, aumentando cada vez mais a fiscalização, buscando cada vez mais uma gestão com compliance e com transparência. Temos que aguardar os órgãos de fiscalização, comando e controle para poder tomar as medidas adequadas.

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Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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