Falando em Experiência….. vejam a reportagem do Estado do Ceará sobre as Arenas Sustentáveis

COPA DO MUNDO – Arenas que “não se sustentam”

O Estado do Ceará – 18/02/2014

Artigo reproduzido a partir da divulgação do SINAENCO

 

A certificação ambiental dos estádios para a Copa do Mundo, conforme padrões internacionais, foi uma condição exigida pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a aprovação dos empréstimos que financiaram as obras de todas as 12 arenas. Mas o desafio está em pensar a sustentabilidade para além de 2014.

“Não adianta somente construirmos uma arena de forma sustentável. Não adianta ter grandes projetos inovadores de sustentabilidade e não administrar de forma correta, de forma que venha a causar menos impacto ao meio ambiente”, avaliou Lucas Silva, representante do departamento de sustentabilidade da Arena Pernambuco, durante a mesa-redonda que marcou o último encontro do programa de treinamento de sustentabilidade para operadores de estádio da Copa do Mundo da FIFA 2014, realizado no último dia 7, no Rio de Janeiro.

O programa, lançado no dia 15 de agosto de 2013, teve como objetivo melhorar o nível de conhecimento dos participantes sobre a operação sustentável de estádios de futebol e outras instalações esportivas. Ao longo de três encontros, foram debatidas experiências e alternativas para aperfeiçoar o gerenciamento operacional dos estádios, como o uso de sistemas eficazes de iluminação, a redução da utilização de água limpa; questões de acessibilidade para deficientes e opções de transporte sustentáveis para o público.

IMPORTÂNCIA DO SELO

A Arena Castelão foi o primeiro estádio a ser concluído para a Copa do Mundo e também, o primeiro equipamento do tipo, na América do Sul, a receber a Certificação Ambiental LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), desenvolvida pelo Conselho Americano de Edifícios Verdes (Green Building Council – USGBC).

“Pensando nessa certificação, uma das mais notáveis no mundo, nós adotamos uma série de ações que impactou de forma positiva no meio ambiente. Durante a construção e já em operação, recebemos técnicos da USGBC, o que resultou na alegria de receber o selo. É motivo de muita satisfação mostrar que é possível realizar uma obra com a grandeza do Castelão e, ao mesmo tempo, investir na sustentabilidade ambiental”, avalia o titular da Secopa – Secretaria Especial da Copa 2014, Ferruccio Feitosa.

O Leed possui sete dimensões a serem avaliadas nas edificações. Todas elas estabelecem pré-requisitos que, se atendidos, garantem pontos para a edificação. O nível da certificação é definido conforme a quantidade de pontos adquiridos, podendo variar de 40 (nível certificado) a 110 pontos (nível platina). O Castelão foi reconhecido no nível mais básico. Entre as características que o definem como tal estão: uso racional de água, eficiência energética, qualidade ambiental interna, uso de materiais de baixo impacto ambiental e estímulo a inovações.

CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL

Durante a obra do Castelão, foram adotados critérios de eficiência. O complexo empregou sistema de condicionamento de ar que não utiliza gases refrigerantes a base de clorofluorcarbono (CFC), responsáveis pela destruição da camada de ozônio. O desempenho energético foi alcançado com redução comprovada de 12,7% do consumo anual de energia. Já a redução do consumo de água potável foi de 67,61%, conquistados apenas com a utilização de metais e de tecnologias economizadoras.

Valores médios obtidos por ambos os edifícios, segundo o presidente da Arena Castelão, empresa responsável pela operação do estádio, Silvio Andrade. No quesito “Tecnologias inovadoras para controle de efluentes”, foi comprovada a redução de 71,94% no volume de água potável direcionada para a rede de esgoto.

Atualmente, são utilizadas louças com menor consumo de água e descargas a vácuo, que contribuem para a redução do consumo de água potável. “Durante o último ano de operação, a economia foi substancial tanto na parte energética quanto na parte de reuso de água, os quais ficaram coerentes com a previsão de economia de em torno de 70% de água e 15% de energia elétrica”, come-mora o presidente da Arena.

Durante a reforma do Castelão, 97% do resíduo gerado, foram reutilizados no próprio equipamento. “Tivemos muitas demolições para a construção da Arena, utilizamos uma máquina que fez a reciclagem de 27 mil toneladas de concreto, reutilizado, principalmente, na pavimentação do estacionamento”, conta Ferruccio.

SUSTENTÁVEL ATÉ QUANDO?

Até o fim de 2015, a Rede de Catadores de Resíduos Sólidos Recicláveis do Estado do Ceará é a responsável pela coleta, separação e destinação dos resíduos sólidos provenientes dos eventos na Arena Castelão.  A medida beneficia 400 famílias de catadores de 17 entidades.

Dentre as características sustentáveis que devem ir além da Copa, Andrade destaca: o reaproveitamento da água da chuva para irrigação do gramado e para sanitários; a utilização de louças com menor consumo de água e torneiras com temporizadores. No estacionamento, a Arena conta com espaços reservados para carona solidária, carro com combustível renovável e bicicletário para funcionário.

No que diz respeito à utilização de energias renováveis, setor onde o Ceará se destaca pelo grande potencial, tanto o presidente da Arena, quanto o titular da Secopa são categóricos em afirmar que ainda é economicamente inviável. “Nós fizemos um estudo para energia eólica e solar, chegamos à conclusão de que ainda são inviáveis. O vento que chega ao Castelão é muito mais rajado do que constante, o que não justifica fazer um investimento, a energia gerada seria irrisória. O custo da implantação da energia solar também muito alto, em comparação com a energia gerada”, justifica Ferruccio.

BONS EXEMPLOS

Até o momento, o equipamento cearense foi o único a receber o reco-nhecimento, porém outros já estão no processo de qualificação, como o Maracanã, no Rio de Janeiro; o Mineirão, em Belo Horizonte; e o Beira-Rio, em Porto Alegre. Este último representa um belo exemplo a ser seguido, no que toca ao seu plano de gerenciamento.

Para a vice-presidente do Sport Club Internacional, time proprietário do estádio Beira-Rio, Diana Oliveira, o foco não deve ser apenas receber uma certificação ambiental, mas garantir o que ela chama de sustentabilidade social. “Somos um clube de futebol com uma função social muito forte, temos um trabalho com duas mil crianças carentes, já há algum tempo, e estamos interessados nesse tipo de ação. O selo da certificação nos deixa satisfeitos, mas daqui para a frente, o foco principal não está só nos recursos, está também é nas pessoas”, ressaltou durante o último encontro do programa de trei-namento de sustentabilidade.

Porém, para muitos, o Estádio das Dunas, em Natal, inaugurado em janeiro deste ano e em processo de requisição do certificado LEED, detém o título de arena mais verde da Copa. Presente na fase de planejamento e também durante a construção, a arena potiguar apresenta características autossustentáveis para além do Mundial.

A cobertura do estádio possui uma estrutura de calhas que coletam a água da chuva, levada para reservatórios e depois filtrada e reutilizada na irrigação do gramado, nos sanitários e na limpeza das instalações. Além disso, a Arena também pretende usar, em médio prazo, a energia solar, captada através de painéis na cobertura, para a iluminação.

SUSTENTABILIDADE PARA ALÉM DE 2014

Em todo o Brasil, manifestações populares marcaram os preparativos para o Mundial. As reivindicações tomaram forma nas ruas do País em junho do ano passado, durante a Copa das Confe-derações. Antes disso, em 2009, criou-se a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa, com representações nas 12 cidades-sede do evento no País. O objetivo é debater, denunciar e exigir reparações às violações de direitos decorrentes da realização a Copa 2014 e também das Olimpíadas 2016.

Segundo o economista e professor universitário, André Lima Sousa, integrante do Comitê Popular da Copa em Fortaleza, calcula-se que cerca de 250 mil pessoas estão ameaçadas ou foram removidas nas 12 cidades-sede para a realização da Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil. “Em Fortaleza, pelo menos três mil famílias estão sob o risco de perder suas casas para dar lugar a obras carentes de planejamento e controle e participação social, além disso, há o problema do endividamento. Durante décadas os governos não terão recursos para investir em saúde ou educação”. Segundo o Portal da Transparência do Governo Federal, em todo o Brasil serão gastos 26 bilhões de reais dos cofres públicos. Para Fortaleza, estão previstos gastos de quase dois bilhões de reais.

Sousa ainda alerta para o fato de que a maioria das obras são exigências da Fifa e visam apenas demandas exclusivas do evento, em detrimento das necessidades da população local. Em Fortaleza, por exemplo, a obra que tem recebido mais críticas foi uma exigência da federação mundial de futebol. O Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) é um projeto de mobilidade urbana que vai percorrer a cidade, partindo do Mucuripe (área de concentração de Hotéis) até o bairro da Parangaba, onde está localizado a Arena Castelão, irrompendo 22 comunidades localizadas ao longo do trajeto.

“O último estudo de demanda de mobilidade data de 1996 e Fortaleza já mudou muito desde então. Evidências simples demonstram que esse traçado do VLT não é prioridade, o fato de estar sendo construído sobre a linha de um antigo trem de carga e ao lado de uma Via Expressa são dois exemplos. É uma obra que visa o que alguns chamam de higienização social e quando o circo da Fifa for embora, só vai sobrar a conta para o cidadão pagar”, alerta Sousa.

ATRASOS QUE IMPACTAM

A menos de quatro meses para a abertura da Copa do Mundo, dia 12 de junho, em São Paulo, cinco dos 12 estádios construídos ou reformados para do Mundial ainda serão inaugurados. A necessidade de conclusão obras com velocidade acaba reduzindo a prioridade das questões ambientais e de acessibilidade.

“Certamente o atraso nos estádios e o aumentos nos custos podem causar uma menor atenção a questões de sustentabilidade. A pressão decorrente da pressa em se construir os estádios pode levar a certos abusos, como o desrespeito a condições de trabalho e itens de sustentabilidade previstos, que acabam deixando de ser prioridade”, diz o chefe do departamento de Responsabilidade Social e Sustentabilidade da Fifa, Federico Addiechi.

Os responsáveis pela operação dos estádios tem um ano, a partir da inauguração, para atender à exigência de certificação internacional, caso contrário, estarão sujeitos a sanções previstas nos contratos de financiamento.

SAIBA MAIS SOBRE O CASTELÃO SUSTENTÁVEL

• Outras características da Arena castelão devem garantir sustentabilidade para além da Copa.

• O Castelão é pintado de branco, ajudando a refratar a luz solar e a dissipar o calor proveniente dela. Também foi considerada a política de proibição de fumo nas áreas internas do complexo e nas externas. A medida, no entanto, prova-se ineficaz à medida que se encontra, facilmente, fumantes inadvertidos nas arquibancadas da Arena Castelão, a cada jogo.

• O USGBC destaca, ainda, um “sistema de monitoramento que assegura o conforto térmico contínuo do público”. Esta, talvez, é a característica mais discrepante com o que torcedores e plateias sentem nas arquibancadas do Gigante da Boa Vista, como é apelidado o estádio. O calor excessivo, maior até do que no antigo Castelão, já foi alvo de várias reclamações de torcedores em redes sociais e matérias veiculadas na mídia cearense.

 

Sobre Alexandre Lara

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira de "Operação e Manutenção Predial sob a ótica de Inspeção Predial para Peritos de Engenharia" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo MACKENZIE, professor das cadairas de Engenharia de Manutenção Hospitalar dentro dos cursos de Pós-graduação em Engenharia e Manutenção Hospitalar e Arquitetura Hospitalar pela Universidade Albert Einstein, professor da cadeira de "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNIP / INBEC), tendo também atuado como professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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