Os riscos do baixo crescimento em 2017

Fonte: Valor Online

Por: Sergio Lamucci

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A tão esperada recuperação da economia ficou para este ano, e a aposta predominante é num PIB bastante fraco em 2017, com crescimento na casa de 0,5%. O risco de variação zero ou mesmo de nova retração não é desprezível. No mercado de trabalho, a expectativa é que a deterioração continue ao longo de boa parte do ano. A taxa de desemprego, hoje um pouco abaixo de 12%, pode superar 13%. Com a demora da retomada, uma ameaça é a economia voltar a afetar o quadro político, dificultando o avanço da agenda de reformas no Congresso.

Outro problema é complicar a já difícil situação fiscal, ao adiar a melhora da arrecadação. As estimativas para 2017 são pouco animadoras. No entanto, os analistas esperam que a economia ganhe força ao longo do ano, em especial a partir do segundo semestre. O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), por exemplo, projeta crescimento de 0,3% na média de 2017, mas espera que o PIB cresça no quarto trimestre 0,7% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, o equivalente a um pouco mais de 2,8% em termos anualizados.

Não é nenhum número assombroso, mas mostra que a economia pode terminar o ano de fato num ritmo um pouco mais forte, o que tenderia a deixar uma herança estatística (o “carry over”, em economês) razoável para 2018. Para este ano, o quadro é o inverso: o PIB padece de uma herança bastante negativa de 2016, estimada pela Tendências Consultoria Integrada em -0,7%. Isso quer dizer que, se o PIB não crescer nada em comparação com o quarto trimestre do ano passado, a economia encolherá 0,7% em 2017. Esse fator ajuda a explicar em parte as projeções de uma economia tão fraca neste ano. Economia fraca pode contaminar política e afetar ajuste fiscal A esperada aceleração do ritmo de corte dos juros a partir deste mês deverá dar um impulso à atividade. Com o recuo da inflação e grande ociosidade na economia, tudo indica que o Banco Central (BC) vai intensificar a redução da Selic, podendo levar a taxa dos atuais 13,75% para menos de 10% ao ano até dezembro. Juros menores vão contribuir para melhorar a situação financeira de famílias e empresas, desanuviando pelo menos um pouco as perspectivas para o consumo e o investimento.

O desempenho da economia, contudo, tem decepcionado, frustrando as projeções de boa parte dos analistas. A retomada não só não ocorreu no terceiro trimestre de 2016 como também não se concretizou nos últimos três meses do ano passado. O Ibre projeta retração do PIB de 0,5% em relação ao terceiro trimestre, na série com ajuste sazonal, enquanto a Tendências estima uma queda menor, de 0,2%. Endividadas, famílias e empresas estão empenhadas em reduzir os seus débitos, o que adia a recuperação. Os governos de todas as esferas estão numa situação fiscal difícil e o programa de concessões em infraestrutura está muito longe de deslanchar. As exportações tampouco puxarão o PIB. Nesse ambiente, não se pode descartar uma queda do PIB também no primeiro trimestre de 2017, ainda que a ritmo mais modesto, “se a atividade seguir se recuperando de forma tão lenta”, como dizem os analistas da MCM Consultores Associados.

Nesse cenário, a inflação tenderia a cair com mais força, abrindo espaço para “uma relevante intensificação do ritmo de cortes da Selic”, escrevem eles. O problema, adverte a MCM, é que há o risco de a “demora na reação da economia contaminar o ambiente político”. Nesse caso, a contaminação da política pode debilitar ainda mais a economia, “reiniciando o círculo vicioso que prevaleceu no país até recentemente”. Foi o que ocorreu no segundo mandato de Dilma Rousseff, interrompido pelo impeachment. Na breve segunda gestão de Dilma, os números cada vez piores da atividade intensificavam a crise política, o que por sua vez contribuía para afundar ainda mais a economia. Se a fraqueza da atividade contaminar o ambiente político, já marcado pelas incertezas relacionadas à Operação Lava-Jato, o andamento das reformas no Congresso pode ser afetado, em especial a da Previdência.

Caso os congressistas aprovem uma versão muito diluída da proposta apresentada pelo governo, aumentarão as incertezas quanto à situação fiscal no longo prazo, além de tornar inviável em poucos anos o cumprimento do projeto que limita a expansão dos gastos. Nesse cenário, a percepção sobre o risco Brasil tenderia a piorar, pressionando o câmbio e tirando espaço para o BC cortar os juros com mais força. A recuperação da atividade, mesmo que gradual, ficaria ameaçada. O desemprego, que hoje afeta mais de 12 milhões de pessoas, demoraria ainda mais tempo para começar a cair. Esse não é, contudo, o panorama central com que trabalham os analistas. A MCM aposta em retomada modesta ao longo do ano, apoiada “pela queda dos juros, pelo avanço gradual das reformas e pela existência de alguns sinais encorajadores no setor industrial”. A consultoria, porém, reconhece que é elevada a probabilidade de ter de revisar para baixo as suas projeções para a atividade econômica, que contemplam uma expansão do PIB de 0,9% neste ano. “E as chances de materialização de um cenário B, mais crítico, de desalento e estagnação, cresceram nas últimas semanas”, dizem os analistas da MCM. Economista-chefe da JGP Gestão de Recursos, Fernando Rocha aponta outro problema do crescimento baixo – o impacto sobre a situação fiscal. “Em primeiro lugar, ficará difícil atingir o déficit primário de R$ 139 bilhões projetado no Orçamento de 2017 para o setor público consolidado.

Com o menor crescimento, a arrecadação de impostos tenderá a se reduzir”, diz ele, que espera variação zero para o PIB neste ano. Rocha lembra ainda que, com uma economia mais fraca, a dívida aumenta mais em comparação com o PIB, “a variável-chave que analistas e agências de classificação de risco olham para determinar se o país é solvente ou não”. Rocha diz também que, no quadro em que surgiu o governo Michel Temer, o crescimento ajudaria “a lubrificar as relações políticas e sociais, evitando atritos maiores”. Se conseguir retomar a expansão da economia, ficará mais fácil aprovar as reformas e aumentar a probabilidade de um ciclo virtuoso, afirma o economista. Sem crescimento, a situação política, já complicada pela Lava-Jato, pode se agravar. Sergio Lamucci é repórter.

O titular da coluna, Antonio Delfim Netto, volta a escrever no dia 9. E-mail: sergio.lamucci@valor.com.br

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Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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