“A eficiência energética é altamente positiva do ponto de vista econômico e da segurança do sistema elétrico”, diz Abesco

Fonte: Procel Info

Por: Tiago Reis

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Para presidente da entidade, Rodrigo Aguiar, essas ações são viáveis e o custo de implantação é bem menor do que a criação de novos sistemas de geração e distribuição de energia

As iniciativas voltadas para a redução do desperdício e aumento do uso eficiente de energia são extremamente positivas tanto do ponto de vista econômico quanto da segurança energética. A opinião é do presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (ABESCO), Rodrigo Aguiar. Para ele, essas ações são 100% viáveis economicamente, já que o custo de implementação de ações de eficiência energética são em média 50% inferiores ao custo da implantação de novos sistemas de geração, transmissão e distribuição de energia.

Para Rodrigo Aguiar o desperdício de energia no Brasil ainda é muito grande e esse cenário precisa ser mudado. O presidente da Abesco acredita que o atual cenário de crise hídrica e aumento das tarifas de energia elétrica vai contribuir para que enfim a eficiência energética entre na agenda de prioridades do país.

Na entrevista que concedeu ao Procel Info, Rodrigo Aguiar, também comentou sobre a realização do 12º Congresso Brasileiro de Eficiência Energética (Cobee), que aconteceu em agosto na capital paulista, e também fez uma análise das principais ações voltadas para a área da eficiência energética.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Procel Info: Foi realizado no mês de agosto a 12ª edição do Congresso Brasileiro de Eficiência Energética (Cobee). Qual a avaliação que pode ser feita do congresso?

Neste ano, o congresso foi muito positivo, uma troca de ideias muito grande entre todos os que estiveram por lá e o tema principal foi o atual cenário energético do país. De um lado nós temos uma pressão muito grande, em função dos reservatórios muito baixos das hidrelétricas, fazendo com que as termelétricas funcionem o tempo todo, 24 horas por dia. E do outro lado, os custos da energia estão muito alto e, infelizmente, com a previsão de que aumente ainda mais, bem acima da inflação nos próximos anos. Em relação a isso, o Ministério de Minas e Energia tem se posicionado de forma proativa, principalmente por meio da Aneel, e juntos estão construindo algumas ações para alavancar a eficiência energética no país.

Procel Info: Durante o Cobee foram apresentadas soluções e iniciativas para aumentar a eficiência energética em vários setores. Essas soluções são economicamente viáveis no curto prazo ou precisam de mais tempo para serem implementadas?

Rodrigo Aguiar: Essas soluções são 100% viáveis. A eficiência energética nós também chamamos de geração virtual de energia, já que a energia que você deixa de consumir, por ter feito uma ação mais eficiente, é disponibilizada no sistema para outro usuário poder usar. E essa energia é a mais barata de todas, já que o custo dela é a metade do preço do custo marginal de expansão do mercado, que hoje está por volta de R$ 130 por megawatt-hora. Enquanto isso, os projetos de eficiência energética estão por volta de R$ 60 ou R$ 70. Então é muito positivo implantar eficiência energética do ponto de vista econômico e do ponto de vista da segurança energética também, porque você não precisa fazer expansão de linhas de transmissão e de distribuição de energia. Muito pelo contrário, ela é mais leve, demandando menos energia. Também tem a questão da sustentabilidade, porque inclui impactos positivos ambientais, já que você reduz o consumo de energia para realizar a mesma ou mais tarefas. Então todo esse aspecto positivo foi colocado dentro do congresso e a gente vem procurando desdobrar e expandir esse conhecimento. E aí existem ações de imediato, médio e longo prazo. O Brasil, desde os anos de 1990, vem implantando diversos projetos de eficiência energética. Infelizmente a comunicação ainda é pequena. O consumidor final, muitas vezes não sabe o muito que já foi feito. Mas muito trabalho já foi feito no Brasil. Em termos de produto, tudo que tem lá fora, nos países desenvolvidos, no âmbito da eficiência energética, tem aqui dentro do Brasil. E da mesma forma, em termos de prestação de serviço. Então, temos que criar agora as ações para propor a eficiência energética aqui dentro do Brasil.

Procel Info: Então, as ações de eficiência energética, se, de fato forem implementadas, podem garantir uma segurança ao sistema elétrico brasileiro minimizando a dependência da utilização de fontes mais caras, como a térmica, e de aumentos na tarifa de energia para reduzir o consumo.

Rodrigo Aguiar: Exatamente isso. Nós colocamos que o volume de energia elétrica hoje, que infelizmente é desperdiçado no Brasil, é mais de 10% de todo o volume de gerado. Isso é equivalente a quase 60% de toda a geração anual da usina de Itaipu. Ou se nós colocarmos de outra forma, a somatória de quase todo o estado do Rio de Janeiro e Pernambuco juntos durante o ano inteiro.

Procel Info: A eficiência energética tem se tornado um tema cíclico. Sempre que o país passa por um período de escassez de energia o assunto volta a ganhar destaque e ser debatido. O senhor acredita que após esse novo susto que o país passou na virada de 2014 para 2015 a eficiência energética vai ganhar a importância que esse tema merece por parte das autoridades a fim de que as ações não percam a sua continuidade?

Rodrigo Aguiar: Exatamente isso! Precisamos dar uma virada no tema eficiência energética. Por quê? Nos governos anteriores, não falo isso recentemente, mas em décadas passadas, os governos não quiseram passar para a sociedade que existia um desperdício de energia no país. A preocupação era apenas com a geração. Cada vez gerar mais energia para atender ao mercado, sem se preocupar com o consumo adequado de energia. Lá fora, nos outros países, há muito tempo existe a preocupação com isso, porque eles sabem que a energia é finita e cara. Cada vez nós temos mais eletrointensivos. Cada vez usamos mais energia para as nossas atividades cotidianas. Então, as nações que tem uma eficiência energética desenvolvida, estão trabalhando essa questão de consumir cada vez menos para aumentar a competitividade dos seus produtos e serviços e ter uma balança comercial mais pujante através dessa maior competitividade e maior produtividade. O Brasil nunca se preocupou com isso. Dentro do custo Brasil, existe uma parcela a mais também ligada ao desperdício de energia, e é isso que a gente tem que tirar também. Independentemente dos demais temas que compõe o custo Brasil, o desperdício incorporado aos produtos e serviços é muito grande e afeta diretamente a competitividade do país. É por isso, que nesse momento, nós precisamos fazer essa transformação para que não ocorra a eficiência energética somente nos períodos de crise. Infelizmente, a eficiência energética não está ligada a racionamento de energia. Uma coisa não está ligada a outra.

Procel Info: Esse tema ainda confunde muita gente, que associa eficiência energética com racionamento. Como trabalhar esse tema para que esse tipo de confusão não ocorra mais?

Rodrigo Aguiar: Uma coisa é racionar. Ou seja, está faltando, eu tenho que consumir menos e consequentemente produzir menos. Um exemplo bobo é o consumo residencial. Uma pessoa deixa de acender a luz do quarto para não consumir essa energia. Mas só que essa pessoa vai ficar no escuro e não vai poder fazer as atividades que necessitam de iluminação. Mas na eficiência energética, a ideia é que a pessoa troque uma lâmpada, por exemplo, incandescente ou uma fluorescente compacta por uma de LED, que na comparação com uma incandescente vai gerar uma economia de até 90%. Isso é eficiência energética e não racionamento. Isso é racionalização. Infelizmente as pessoas confundem as duas palavras. Por isso, estamos evitando usar essas palavras, já que a base é a mesma e acaba gerando essa confusão. Então, nós preferimos usar essa questão do desperdício de energia, já que o tema é exatamente esse. Por isso, temos que trabalhar para acabar com esse mito e pensar num país mais competitivo. Nós temos que acabar com esse desperdício que é desnecessário.

Procel Info: O alto custo e a falta de incentivos ainda são uma barreira para o crescimento da eficiência energética no Brasil?

Rodrigo Aguiar: Na verdade é aquela velha questão, quando o preço da energia está barato ninguém se preocupa em economizar e há muito desperdício de energia. O mesmo ocorre com a questão da água no Brasil. O preço é variável por região e nas regiões onde o custo da água é barato não existe nenhuma preocupação em evitar o desperdício. Já nas grandes cidades, onde o custo da água é mais caro, são aplicadas inúmeras ações para reduzir o consumo da água. Então, quando ocorre o aumento do preço da energia elétrica as pessoas realmente se preocupam com o tema e vão atrás de uma forma para reduzir esse consumo. Nós não gostaríamos disso. Gostaríamos que as pessoas se preocupassem com o não desperdício. Mas na verdade, esse aumento do custo favorece a eficiência energética porque ele reduz o tempo de retorno dos investimentos nesses projetos. E quando falamos em eficiência energética o tempo de retorno sobre o investimento varia de seis meses a três anos. E muitas dessas ações podem ser feitas sem o consumidor colocar um grande volume de aporte de capital, já que a própria empresa de conservação de energia (Esco) faz o investimento e recebe de volta do cliente com a economia do projeto. Infelizmente, a maioria dos consumidores ainda não está aberta a esse tipo de ação. Relatório da Agência Americana de Eficiência Energética (ACEEE) analisou as maiores economias do mundo em seis pontos relacionados à eficiência energética. O Brasil ficou em penúltimo lugar, ficando à frente somente do México e por apenas um ponto. Nesse relatório, a pior nota nossa foi no setor industrial. Dos 25 pontos possíveis, nós fizemos apenas dois pontos. E por que isso? O industrial brasileiro pensa que está fazendo ações de eficiência energética, mas não está. Nós estamos muito atrasados com isso. O nosso parque fabril está muito defasado e sucateado. Ele poderia ser modernizado apenas com a troca de equipamentos. E todo esse investimento seria pago somente com a economia de energia. Mas, infelizmente nós ainda estamos engatinhando quanto a isso. Tem muita coisa que ainda precisa ser feita.

Procel Info: Durante o Cobee foi realizada mais uma edição da ExpoEficiência. Houve um aumento na procura por soluções na área de eficiência energética na feira deste ano?

Rodrigo Aguiar: Houve uma procura muito grande, principalmente em ações específicas como o gerenciamento de energia. Hoje temos várias formas de gerenciar energia. Algumas empresas estão buscando alternativas para gerenciar de forma eficiente a energia, já que esse consumo afeta diretamente a produtividade e o funcionamento e manutenção dos equipamentos. Por outro lado, equipamentos de climatização, aquecimento solar, motores eficientes tudo isso também foi mostrado no congresso com demonstrações sendo feitas de forma muito direta para os consumidores. Nós também realizamos algumas ações com parceiros. Um exemplo disso é o manifesto sobre edificações que lançamos recentemente. Hoje as edificações correspondem a quase 50% do consumo de energia de todo o país, tanto na área comercial, serviços, industrial e residencial. Existe um potencial médio de economia de 30% nesses prédios. Então, nós lançamos esse manifesto junto com parceiros para a certificação dessas edificações para poder acabar com o desperdício. Fizemos também uma parceria com o Ministério do Meio Ambiente onde eles estiveram na feira para mostrar as diversas soluções que se tem para as edificações e linhas de financiamento para isso. Também houve um trabalho conjunto com o Sebrae-SP, no qual lançamos uma cartilha para comércio e serviços com várias dicas sobre como economizar energia. Essa solução é voltada principalmente para o pequeno e médio empresário para que ele possa realizar um diagnóstico energético e saber onde de fato gasta a energia.

Procel Info: Ainda sobre o lançamento do “Mapeamento Energético”, qual foi a receptividade desta solução no setor empresarial?

Rodrigo Aguiar: A receptividade foi muito positiva, já que a ideia é que o próprio empresário, com esse mapa energético, possa fazer essa análise. Com algumas horas de estudo dele ou da equipe de trabalho é possível trabalhar para ver como o empresário pode reduzir o consumo de energia elétrica.

Procel Info: Quando se fala em eficiência energética, muitas medidas são pensadas para os grandes consumidores. Soluções voltadas para os pequenos consumidores também podem alcançar resultados significativos em larga escala?

Rodrigo Aguiar: É exatamente esse o trabalho que nós estamos fazendo com o Sebrae. O foco é exatamente esse, o de atender o micro e pequeno empresário, porque quantitativamente esse o grande volume de empresas que temos no país. Se olharmos individualmente os maiores percentuais de desperdício acontecem nas micro e pequenas empresas. O volume de energia não é muito grande, mas o percentual de desperdício é. Estamos conversando com os Sebrae de outros estados e a ideia é expandir essas ações desenvolvidas com o Sebrae-SP por todo o país com o objetivo de aumentar a eficiência energética entre os pequenos consumidores levando até eles informações, dicas, consultorias, palestras, diagnósticos que possam ser feitos para que eles possam ter o conhecimento para usar de maneira mais eficiente a energia elétrica. Começamos também a conversar com agentes financeiros no sentido de ter linhas de crédito adequadas para esse segmento específico. Hoje já existe o Cartão BNDES que possui linhas de financiamento específicas para a eficiência energética para atender ao pequeno empresário. Temos também uma linha que se chama BNDES Soluções Tecnológicas que acabou de ser lançada. Ela está ainda na fase de cadastramento das soluções tanto de fabricantes quanto de prestadores de serviço. São esses desenvolvimentos que nós queremos colocar para que a eficiência energética no país tome um rumo forte, com continuidade, e atinja o seu objetivo que é acabar com o desperdício no país.

Procel Info: Como que o senhor avalia as ações governamentais na área de eficiência energética?

Rodrigo Aguiar: Considero que esses programas ainda estão embrionários. Nós ainda estamos engatinhando, até porque ainda tem muito a ser feito. Mas você pega, por exemplo, as ações do Selo Procel. É um trabalho magnifíco que tem sido feito há muito tempo e que hoje já tem uma consistência. O consumidor, quando vai comprar um equipamento eletroeletrônico vai em busca de um equipamento que tem o Selo, já que este produto consome menos energia. Do outro lado, você também tem o Conpet, com ações voltadas para a eficiência energética. Também temos os planos de eficiência energética das distribuidoras. Desde os anos de 1990 esse é um projeto que vem sendo feito com várias ações em diversos âmbitos e setores. Mas mesmo assim, essas ações ainda são poucas em comparação com o desperdício que nós temos. Por isso, eu digo que nós ainda estamos engatinhado. Existem alguns trabalhos paralelos, como o do Ministério do Meio Ambiente sobre edificações que é uma iniciativa que vem crescendo. Nós começamos a atuar com eles e a ideia é levar isso para arquitetos e engenheiros civis para a construção de prédios corretos no quesito de energia e trazer soluções para as edificações já existentes. Por outro lado, o Ministério de Minas e Energia junto com a ANEEL também estão realizando um trabalho conjunto nessa área. Existe também a ação do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior junto com a CNI (Confederação Nacional da Indústria) que estão realizando um trabalho de promoção da eficiência energética para que as indústrias brasileiras possam ter as ações alavancadas por um plano de eficiência mais arrojado. Está no começo ainda, mas nós temos muita esperança de que esse plano possa dar certo.

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Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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