Empreiteiras citadas na Lava-Jato podem ter dificuldade na execução de obras para Olimpíadas

Fonte: O Globo (RJ)

Divulgação: SINAENCO

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Vista aérea das obras do Parque Olímpico, na Barra: serviços de infraestrutura e construção de parte das instalações esportivas estão sendo realizados por empreiteiras citadas na Operação Lava-Jato – Ricardo Moraes / Reuters

As denúncias da Operação Lava-Jato, relacionadas a um esquema de corrupção envolvendo a Petrobras e uma série de empreiteiras, podem transformar em corrida de obstáculo os esforços para concluir as obras para os Jogos de 2016, a 18 meses do evento. Sete empreiteiras investigadas aparecem em 11 projetos considerados cruciais para as Olimpíadas, como o Parque Olímpico da Barra, a Vila dos Atletas e a Linha 4 do metrô. Especialistas ouvidos pelo GLOBO acreditam que muitas dessas empresas podem vir a ter problemas para contrair empréstimos no mercado e manter o ritmo dos trabalhos nos canteiros de obras. Os contratos envolvem R$ 27,1 bilhões, cerca de 92% do total de investimentos em estádios e infraestrutura previstos para o evento. O levantamento do GLOBO tomou como base a lista de projetos divulgados pela Autoridade Pública Olímpica (APO).

As construtoras que preocupam são Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Mendes Júnior e Carioca. Na lista de obras, estão não apenas estádios e vilas olímpicas, mas também projetos que ficarão como legado de mobilidade urbana ou infraestrutura.

Muitos desses projetos são contratos de longo prazo. Como o Porto Maravilha, conduzido pela empresa Porto Novo S/A, que tem entre os acionistas a Odebrecht Infraestrutura (37,5%) e a OAS (37,5%). Esta última, de acordo com uma das cláusulas do contrato, também ficará responsável por conservar as áreas revitalizadas por um período. No Parque Olímpico, sob a responsabilidade do consórcio Rio Mais (33,3% Odebrecht Realizações Imobiliárias Ltda e 33,3% Andrade Gutierrez), o contrato de concessão também prevê a manutenção das áreas públicas por 15 anos.

RISCO DE VIRAR BOLA DE NEVE

A gerente de análise de investimentos da Lopes Filho & Associados, Leila Almeida, destaca que geralmente grandes empreiteiras não têm patrimônio para oferecer como garantia.

Nem faria sentido terem muito patrimônio. Empreiteiras não são fábricas que precisam de instalações, mas prestadoras de serviços que buscam financiamento, oferecendo como garantia os contratos que firmaram. Existe o risco de o que começou na Petrobras virar uma bola de neve pela falta de crédito analisou Leila Almeida.

A ampliação do Elevado do Joá, um dos compromissos para as Olimpíadas, é feita pela Odebrecht – Domingos Peixoto / Agência O Globo

No dia 2 de novembro do ano passado, o procurador de Contas junto ao TCU (Tribunal de Contas da União), Júlio Marcelo de Oliveira, requisitou ao órgão que oito grandes empreiteiras fossem declaradas inidôneas, em consequência das investigações da Operação Lava-Jato. Entre as que participam das obras olímpicas, apenas a Odebrecht não foi citada na época. Caso o pedido seja aceito, as empresas seriam proibidas de firmar novos contratos com o setor público pelo prazo de cinco anos, criando mais dificuldades financeiras.

Para Cláudio Frischtak, da Interb Consultoria, o grande problema para essas empresas hoje é o fato de ser impossível afirmar quanto tempo vai durar a crise criada pelas revelações da Lava-Jato. O que, obviamente, se reflete na hora de negociação de créditos bancários.

Normalmente os bancos já são instituições bastante conservadoras. E, numa situação como a da Lava-Jato, tendem a ser mais exigentes com relação a garantias. Afinal, não se sabe que empreiteiras vão sobreviver a essa crise e honrar seus empréstimos. E, mesmo que sobrevivam, em que condições isso se dará analisou Cláudio Frischtak.

Os sinais de dificuldade já começam a aparecer. Em janeiro, as agências de classificação de risco Standard & Poors e a Fitch rebaixaram as notas de avaliação (rating) da capacidade de pagamento aos fornecedores da construtora OAS. Além do Porto Novo, a construtora divide com a Queiroz Galvão a responsabilidade por executar as principais obras do Parque Olímpico de Deodoro. Lá, as duas empresas têm que correr contra o tempo para finalizar os trabalhos que começaram com atraso, há cerca de oito meses, devido a questões burocráticas.

Outro complicador é que algumas obras têm que ser entregues já no segundo semestre deste ano, porque muitas arenas, por exigência do Comitê Olímpico Internacional (COI), precisam receber eventos-teste este ano.

Apesar das preocupações do mercado, o governador Luiz Fernando Pezão e o prefeito Eduardo Paes têm negado seguidamente que exista risco que o escândalo contamine o projeto olímpico. Procurados nesta quinta-feira, Pezão e Paes não responderam aos pedidos de entrevista. No caso do governo do estado, o investimento mais estratégico é nas obras da Linha 4 do metrô. Dos R$ 8,7 bilhões que estão sendo gastos para levar o metrô da Zona Sul à Barra da Tijuca, R$ 7,6 bilhões são do estado (que se endividou para viabilizar o projeto) e R$ 1,1 bilhão da Rio Barra Participações. A empresa líder da Rio Barra é a construtora Queiroz Galvão. Entre as que participam do consórcio, está ainda a Carioca Engenharia, outra investigada na Lava-Jato.

OAS E ANDRADE GUTIERRREZ NEGAM PROBLEMAS

Das sete empresas do caso Lava-Jato citadas na reportagem, duas negaram a possibilidade de atraso no cronograma das obras. A OAS afirmou que todas as operações estão sendo executadas de forma normal e no curso dos negócios. A Andrade Gutierrez destacou que tem tamanho e escala significativos e que, até o momento, nenhum dos projetos sofreu impacto e que as obras seguem o cronograma e escopo definidos pelos clientes. A empresa afirmou ainda que não tem qualquer relação com os fatos investigados pela Lava-Jato.

Afirmando que não poderia atender às demandas da imprensa por exigência contratual, a Mendes Júnior, responsável pelas obras de combate a enchentes na região da Grande Tijuca, não quis comentar o caso. A Camargo Corrêa que através do grupo CCR trabalha no projeto do VLT carioca e do BRT Transolímpico orientou a reportagem a procurar a assessoria de imprensa do Grupo CCR, que, por sua vez, disse que a questão era com a Camargo Corrêa. Odebrecht e Queiroz Galvão não responderam. Não foram localizados representantes da Carioca Engenharia, que tem participação na Linha 4 do metrô.

De acordo com duas fontes ouvidas pelo GLOBO, diretores da Odebrecht teriam participado, na quinta-feira à tarde, de uma reunião com o prefeito Eduardo Paes para relatar dificuldades de manter o ritmo das obras no Parque Olímpico da Barra por conta das dificuldades de acesso ao crédito. As assessorias do prefeito e da empreiteira negaram a reunião. Uma subsidiária da empresa, a Odebrecht Realizações Imobiliárias, detém 33,3% de participação no Consórcio Rio Mais, responsável pela maioria das obras (com exceção de algumas arenas) numa parceria público-privada com a prefeitura. O Rio Mais tem a atribuição de, por exemplo, construir o Centro de Mídia e Transmissão, que gerará todas as imagens do evento. O projeto é considerado complexo, porque implica particularidades arquitetônicas de modo a evitar falhas na transmissão dos Jogos. Também atua no projeto do Centro de Mídia a Construtora Queiroz Galvão (com 33,3% de participação), outra investigada na Lava-Jato.

AS OBRAS

Linha 4 do metrô: Queiroz Galvão lidera o consórcio Rio Barra, que tem ainda a participação da Odebrecht e Carioca Engenharia, entre outras.

Porto Maravilha: Participam do Consórcio Porto Novo S/A : Carioca Engenharia, Odebrecht Infraestrutura, uma subsidiária do grupo, e OAS. O empreendimento está orçado em R$ 8,2 bi.

BRT Transolímpico: Ao custo de R$ 1,7 bilhão, em regime de PPP, o empreendimento reúne a OAS, via Grupo Invepar (33,4%), Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, acionistas do Grupo CCR (33,3%), e a Odebrecht Transport (33,3%).

VLT Carioca: Camargo Corrêa, via CCR e Odebrecht.

Despoluição das Lagoas da Barra: Queiroz Galvão/OAS /Andrade Gutierrez.

Vila dos Atletas: Odebrecht (50%) .

Parque Olímpico da Barra (parte): Odebrecht (33,3%) e Andrade Gutierrez (33%)

Parque Olímpico de Deodoro (parte): Queiroz Galvão /OAS.

Duplicação do Elevado do Joá: Odebrecht.

Obras de combate às enchentes na Grande Tijuca: Mendes Júnior.

Saneamento da Zona Oeste: Odebrecht e Queiroz Galvão (participação em Águas do Brasil).

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Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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