Para melhorar o trânsito, piore

Apesar de concordar “em parte” quando a matéria abaixo aborda a questão do “trânsito induzido”, uma vez que somos seres humanos e que, como seres humanos, nos acostumamos com as situações que nos oferecem conforto…, discordo de uma outra parte deste conceito, quando não leva em consideração que uma infraestrutura mínima e funcional de transporte público seria necessária.

Afinal, considerando que a Inglaterra (presumo que Londres), Paris e Nova York foram citadas como exemplos para a aplicação do conceito acima, vocês concordariam em afirmar que São Paulo possui uma infraestrutura para a mobilidade urbana similar ou, ao menos, proporcionalmente adequada?

Sinceramente, acho que a aplicação deste conceito em São Paulo deveria se chamar de “chuta a bola que eu corro atrás”…

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Fonte: A Folha de SP (Cotidiano)

Leia aqui a matéria em sua origem.

 Ao serem expostas ao conceito de “trânsito induzido” (ou “provocado”), muitas pessoas perguntam: então o que o poder público deve fazer, nada? Em uma palavra, a resposta é essa mesmo: “nada”. Explicando um pouco melhor: nada para paparicar os usuários de automóvel, o máximo possível para melhorar a vida de quem anda de transporte público, a pé ou de bicicleta. Ou, ainda sendo mais radical: os governos devem até mesmo fazer alguma coisa para complicar mais o trânsito dos carros particulares, induzindo os motoristas a desistirem.

Há muito tempo, os economistas perceberam que a melhor receita para criar consenso contra a inflação é a hiperinflação. Foi o que aconteceu na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial (quando o salário de um trabalhador pobre correspondia a um carrinho de feira de notas de dinheiro) ou mesmo no Brasil do final dos anos 1980 até o início dos anos 1990, quando a taxa de desvalorização da moeda chegou a 80% ao mês. Inflação baixa, mesmo que constante e consistente como temos hoje no país, não é tão convincente para fazer as pessoas aceitarem sacrifícios. Mas quando o dinheiro se esvai a cada semana, todos topam os sofrimentos dos ajustes para alcançar estabilidade monetária.

O mesmo acontece com o trânsito: ninguém deixa o conforto do carro se não se vir obrigado a isso, poucos adotam o transporte público voluntariamente. Algo precisa forçar essa decisão. E a melhor forma é deixar o congestionamento revelar toda a sua gravidade.

O conceito de “trânsito induzido” é fruto da constatação feita por engenheiros de tráfego nos EUA e na Inglaterra, ao observar que toda obra de melhoria viária resultava em congestionamento ainda maior, no médio prazo, depois de alguma melhora inicial. Ao saber que o tráfego ficou bom em certa via ou área da cidade, gente que não usava carro passa a utilizá-lo para suas perambulações diárias.

Inversamente, o trânsito pode ser reprimido, por assim dizer, reduzindo as faixas de rolamento; fechando avenidas; tirando carros particulares de faixas reservadas para transporte público; eliminando vagas de estacionamento nas ruas para destiná-las às ciclovias (como agora propôs a Prefeitura de São Paulo) e restringindo a criação de garagens em áreas centrais (ao contrário do que propôs a mesma Prefeitura no ano passado). Enfim, medidas que agravam as dificuldades para aqueles que, mesmo tendo acesso a transporte público, insistam em andar de carro.

Para quem gosta de olhar o chamado “primeiro mundo”: Paris e Nova York fazem um pouco de tudo isso. Inclusive, fecham cerca de 30 km de ruas a cada ano, reduzindo as áreas disponíveis para uso de carros particulares.

Nenhuma dessas medidas, se adotada por aqui, será novidade, portanto: elas já foram todas testadas e avaliadas pelas grandes cidades dos países ditos desenvolvidos, que têm congestionamentos como São Paulo e Rio, apesar de infraestrutura melhor de transportes públicos. O resultado das experiências acumuladas é que aquelas cidades não gastam mais fortunas em dinheiro dos contribuintes para construir soluções viárias para automóveis. Ao contrário: melhoram a vida dos pedestres, dos ciclistas e dos usuários de transporte coletivo, mesmo que, às vezes, atazanando os donos de carros.

Sobre Alexandre Lara

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira de "Operação e Manutenção Predial sob a ótica de Inspeção Predial para Peritos de Engenharia" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo MACKENZIE, professor das cadairas de Engenharia de Manutenção Hospitalar dentro dos cursos de Pós-graduação em Engenharia e Manutenção Hospitalar e Arquitetura Hospitalar pela Universidade Albert Einstein, professor da cadeira de "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNIP / INBEC), tendo também atuado como professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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