Expansão da capacidade termelétrica está em risco

Fonte: Valor Online (07/03/2014)

Por: Daniel Rittner e André Borges

A ampliação da energia entregue pelas usinas térmicas, que atualmente trabalham a plena carga para suprir a demanda elétrica do país, está comprometida. O sinal de alerta sobre a capacidade de geração de novas usinas movidas a óleo, gás e carvão consta de relatórios de acompanhamento realizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O cenário é ruim.

Os dados da agência apontam que, entre 2014 e 2020, um total de 6.942 megawatts (MW) de geração térmica deveria ser adicionado à matriz energética do país. Um terço dessa potência (2.341 MW), no entanto, não tem previsão para sair do papel.

Outros 1.020 MW apresentam uma série de restrições para entrar em operação. A situação é grave, à medida que não se trata mais de projetos meramente planejados pelo governo, mas sim de empreendimentos que foram outorgados pela Aneel e que estão – ou deveriam estar – em fase de implantação pelas empresas.

Muitos dos problemas com as térmicas, de acordo com os dados da agência, estão relacionados ao grupo Bertin. Quase metade da energia que ainda não tem previsão para entrar em operação está, segundo a Aneel, nas mãos do grupo. O Valor apurou que a empresa já conta com uma lista de 17 projetos cancelados pela agência por atrasos. O Bertin foi acionado para pagar garantias que giram em torno de R$ 450 milhões, mas até hoje nenhum centavo foi desembolsado. A empresa tem liminares judiciais contra a cobrança.

Apesar dos projetos revogados, a empresa ainda conta com uma relação de seis usinas com contratos ativos e em construção no complexo industrial de Aratu, na Bahia. Esse grupo de térmicas, todas movidas a óleo, soma 1.056 MW de potência. Procurado pelo Valor, o Bertin informou que deverá iniciar a operação comercial das seis usinas ainda neste ano. “Já foram investidos até agora cerca de R$ 1 bilhão, 100% recursos próprios do acionista. A evolução das obras tem sido periodicamente informado à Aneel”, declarou a empresa.

Os obstáculos que se impõem à geração térmica não se restringem à situação específica de uma ou outra empresa. Especialistas do setor afirmam que boa parte das dificuldades de viabilizar essas usinas está no modelo de leilão feito pelo governo. Como as térmicas são fontes mais caras que a hidrelétrica ou a eólica, acabam ficando de fora das contratações de energia.

“O setor precisa que o governo estabeleça condições mais condizentes com a realidade das térmicas, caso ele realmente queira contratar essas usinas”, diz Luiz Fernando Zancan, presidente da Associação Brasileira de Carvão Mineral (ABCM). Há quatro anos, o governo não contrata térmicas a carvão. Em 2009, afirma Zancan, duas usinas previstas para entregar quase 1 mil MW – a usina de Usitesc (SC) e de Seival (RS) – chegaram a entrar no páreo, mas o governo decidiu excluir a fonte do leilão por conta de implicações ambientais. “Se essas duas usinas estivessem em operação hoje, o setor elétrico estaria economizando cerca de R$ 500 milhões por mês em gastos com óleo diesel, produto importado bem mais caro que o carvão”, diz Zancan.

A crescente dependência da geração térmica tem sensibilizado o governo, avalia Luiz Fernando Vianna, presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine). Ele lembra que, até início dos anos 2000, a geração de energia do país era, basicamente, hidrelétrica, com o acionamento de térmicas apenas em situações complementares.

“É preciso observar que esse cenário mudou. Com a redução dos reservatórios de acumulação de água, passamos a necessitar mais de térmicas. Hoje o sistema brasileiro é hidrotérmico, essas usinas entraram para a base do abastecimento”, afirma Vianna. “O governo está sensível a isso. Acredito que, no leilão do segundo semestre, haverá espaço para contratação de novas térmicas.”

O parque instalado da geração térmica do país possui 1.823 usinas em operação. A maior parte dessas estruturas – 1.146 unidades – são alimentadas por óleo diesel, uma das fontes mais poluentes de energia. A potência instalada das usinas movidas a óleo (7.679 MW), porém, é inferior à geração baseada em gás, que tem capacidade de injetar 13.632 MW no sistema elétrico.

Hoje, o potencial de geração de todas as térmicas do país é de 36.538 MW, o que equivale a 29% da capacidade instalada do país, um total de 126,7 mil MW. A energia gerada pelas hidrelétricas representa 67,65% desse montante. Como a prioridade de geração efetiva de energia, no entanto, são as hidrelétricas, quase 80% da eletricidade entregue no país no ano passado partiu de turbinas movidas pela água.

Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira de "Operação e Manutenção Predial sob a ótica de Inspeção Predial para Peritos de Engenharia" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo MACKENZIE, professor das cadairas de Engenharia de Manutenção Hospitalar dentro dos cursos de Pós-graduação em Engenharia e Manutenção Hospitalar e Arquitetura Hospitalar pela Universidade Albert Einstein, professor da cadeira de "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNIP / INBEC), tendo também atuado como professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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