Cinco anos depois de aberto, Engenhão vira incógnita

Valor Online – São Paulo/SP – BRASIL – 10/04/2013

O primeiro estádio olímpico brasileiro, um exemplo de arquitetura arrojada e inovadora, teve o erguimento da cobertura filmado e exibido pelo Discovery Channel no programa “Mega Construções”. Em cerca de 40 minutos, o programa mostra uma obra cheia de percalços, com a troca do consórcio construtor, descoberta de falhas na estrutura, corrigidas posteriormente, e um final feliz, comemorado com um grande churrasco.

Há cinco anos, espectadores assistem jogos, shows e participam de eventos no Estádio João Havelange praticamente todos os fins de semana. Palco de shows com Paul McCartney, Justin Bieber, Lady Gaga ou Roger Waters, teve seu maior público, porém, numa partida de futebol: em 30 de junho de 2007, 43.810 pessoas assistiram ao Botafogo ganhar de 2 a 1 do Fluminense.

No dia 16 de março, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), anunciou que o estádio olímpico, mais conhecido como Engenhão, estava sendo interditado por prazo indeterminado. Um laudo feito pela empresa alemã Schlaich Bergermann und Partner (SBP), especializada em coberturas de estádios, apontava que ventos acima de 63 km/h poderiam causar um grave acidente. “Eu fechei. O fato é que eles vieram aqui e me informaram que havia risco de cair. Mandei fechar”, disse Paes.

O anel da cobertura do estádio olímpico foi finalizada em setembro de 2006. O vídeo do Discovery Channel mostra o alívio dos engenheiro do Consórcio Engenhão. Um deles declara sonhar em vir ao estádio com seus filhos e dizer: “Papai construiu.” No entanto, ao Discovery, ninguém revelou que quando foram tiradas as colunas de sustentação da cobertura, o anel se movimentou mais que o previsto. “Nossos cálculos previam um movimento máximo de 70 centímetros. Foram 17 centímetros a mais”, diz o projetista, Flávio DAlambert, da Alpha Projetos.

Erro de projeto? Problemas na obra? Ninguém conseguiu explicar até hoje. O relatório final apresentado pela auditoria portuguesa TAL Projectos, que também auditou o estádio do Benfica, no qual o Engenhão é inspirado, recomendou o monitoramento constante do arco. O relatório reconhece os problemas: “É sabido que todo o processo de execução do projeto e de construção da cobertura do Estádio Olímpico João Havelange passou por inúmeras vicissitudes.”

A construção do Engenhão foi planejada em duas licitações. A primeira, para o erguimento da estrutura e da cobertura, foi vencida pelo consórcio das construtoras Delta, Racional e Recoma. Iniciado em 2003, o estádio deveria ser concluído em 2005 e custar pouco mais de R$ 60 milhões. Dez aditivos depois, o Consórcio Engenhão, formado pela OAS e a Odebrecht, ganhador da segunda concorrência, que previa a instalação dos acabamentos, foi convocado para assumir aobra em dezembro de 2006. O estádio foi finalizado em um ano e custou R$ 320 milhões.

Com apenas 25% da cobertura pronta, só uma das quatro alas, a oeste estava erguida. Em quatro meses tudo foi entregue. Flávio DAlambert diz que o projeto inicial foi modificado algumas vezes. O arco foi adaptado para as dimensões do estádio, além de modificado para que pudesse ser entregue a tempo.

Em seu relatório final, DAlambert recomendou que fosse efetuado um levantamento topográfico mensal durante três meses e anual posteriormente. O projetista também aconselhou que vários sensores fossem instalados nos arcos para medir possíveis deslocamentos e a velocidade do vento. Além disso, encomendou estudos à Coppe e testes de ventos no laboratório canadense Rowan Williams Davies and Irwin (RWDI). Nenhum problema na estrutura foi detectado.

De fato, depois do movimento inicial inesperado, a cobertura até hoje é considerada estável e não apresentou nenhum abalo. O laudo da RWDI afirmou que apenas com ventos acima de 113 km/h haveria problemas. Como no Rio nunca houve ventos dessa intensidade, o estádio seria seguro.

Engenheiros que fizeram parte do Consórcio Engenhão, que preferiram não se identificar, disseram que desconfiaram da falta de explicações para o movimento inicial. A SBP, autora do laudo que motivou a interdição do Engenhão, é a empresa que atualmente está construindo para o consórcio Maracanã-Rio 2014, formada pela Odebrecht e a Andrade Gutierrez, a cobertura do estádio.

O Engenhão ainda não tem data para ser reaberto. O prejuízo por enquanto está na mão do Botafogo, clube que ganhou a licitação para explorá-lo. No último ano, o estádio rendeu R$ 10 milhões ao clube, com um custo de R$ 400 mil. “Estamos aguardando para ver quanto tempo o estádio terá que ficar fechado”, diz Sérgio Landau, diretor-executivo do clube. Segundo ele, o Botafogo estava negociando novos shows, que agora foram suspensos. “O aluguel do estádio custa entre R$ 700 mil a R$ 1 milhão”, informa.

O prefeito Eduardo Paes diz que não pagará uma nova reforma e a responsabilidade é de quem constrói. “Quando assumi, fui informado que as construtoras o monitoravam. No fim do mês passado, eles vieram aqui e trouxeram o relatório. Por isso mandei interditar, porque afirmaram haver risco. Agora, eles devem dar a solução”, afirma.

Em uma coletiva de imprensa, realizada logo após a interdição do estádio, a Odebrecht e a OAS informaram sobre uma cláusula contratual que as isentava da responsabilidade do projeto. No entanto, Cesar Maia, prefeito na época da construção, afirma que as empresas são responsáveis pela obra. “É previsto o risco de executabilidade. Além disso, ainda não foi provado o motivo do problema”, diz. Procurada pela reportagem, a Odebrecht, líder do Consórcio do Engenhão, não se manifestou.

Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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