“Algo de podre no reino das obras”

Comentário sobre o artigo de O Globo – Infomix (03/04) também divulgado pelo SINAENCO

Vejam inicialmente o artigo:

Algo de podre no reino das obras

Não quero ser alarmista, mas se o Engenhão, com pouco mais de seis anos, teve que ser interditado por causa de ferrugem no arco da cobertura, o que dirá o Elevado do Joá, com seus 40 anos de existência, sujeito à maresia e a uma duvidosa manutenção? A Coppe já deu a resposta. Através de laudo técnico, diagnosticou que “o estado de degradação estrutural pelo avanço da corrosão compromete a segurança do viaduto”. Tudo bem que foram tomadas providências emergenciais para os reparos parciais. Mas será que isso resolve? Engenheiros acham que não. O professor Miranda Batista, que coordenou o estudo, é taxativo: “A vida útil do Joá acabou. A reforma que a prefeitura promete fazer cobre apenas as áreas onde o problema é visível. Mas 60% delas não podem ser fiscalizados.” O vice-presidente da Associação Brasileira de Pontes e Estruturas (ABPE,), Ubirajara Ferreira da Silva, também defende a restauração completa do elevado. “O que o prefeito propõe é atuar com base na incerteza”, ele acusa.

Eduardo Paes alega que, como restam de fato incertezas sobre as reais condições de conservação nas partes internas da construção não visíveis por falta de acesso, é mais econômico realizar as obras que, ao longo do tempo, forem apontadas como necessárias. Mais econômico, sim. O trabalho inteiro custaria mais de R$ 100 milhões. Em compensação, a solução não seria muito mais segura? O relatório dos técnicos não deixa dúvidas quanto à gravidade do desgaste estrutural dos “dentes de apoio das vigas”. Quem já viu um filme parecido com final trágico, como a queda do Elevado Paulo de Frontin, em 1971, não passa hoje pelo Joá despreocupadamente. Como desabafou a jornalista Leda Nagle: “Não posso ficar calada, fingindo que não sei que o viaduto está corroído e ameaçado.”

É evidente o perigo que oferecem nossas obras públicas. O Engenhão, além de tudo, não suporta nem ventos de mais de 60km; o Joá, com estrutura soltando pedaços, é uma situação de risco; prédios do Minha Casa Minha Vida desabando antes de inaugurar; o BRT Transoeste, de apenas nove meses, tendo que refazer o asfalto da pista. Enfim, não dá para não se assustar. Quaisquer que sejam as causas – defeitos no projeto, falhas na execução, precariedade de material, falta de fiscalização, descuido com a manutenção ou tudo isso, a verdade é que há algo de podre com as nossas edificações oficiais, e a culpa talvez não seja apenas da engenharia.

Comentários do Blogueiro:

Existem duas situações distintas no texto acima:

  • Uma obra de 40 anos de idade, aparentemente bem executada na época e sem a devida manutenção ao longo dos anos e gestões responsáveis (ou “irresponsáveis”…)
  • Uma obra de 6 anos, construída as pressas para atender aos jogos Panamericanos, com o custo final bem acima do previsto e certamente entregue à administração do Botafogo FR sem nenhum histórico de manutenção

Aliás, também vimos recentemente casos de obras públicas entregues ao controle e à administração de concessionárias, tal como o caso da Rodovia Fernão Dias que liga São Paulo ao estado de Minas Gerais, onde parte da estrutura em uma encosta desabou parcialmente em função das chuvas (2010 se não me falha a memória) e por falta de manutenção / monitoramento.

O fato é que obras extremamente caras e não comissionadas de forma adequada, ou melhor, sem uma entrega técnica adequada, permanecem sem uma manutenção adequada ou mesmo sem nenhuma manutenção durante a sua vida útil.

Ainda quando há uma atividade de manutenção contratada ou coordenada pelo poder público, nos deparamos algumas vezes com contratos do tipo “eu finjo que executo e você faz que recebe…”, ou com a metodologia do “canibalismo”, quando peças e componentes de equipamentos instalados em áreas não utilizadas são retiradas para atender necessidades em áreas mais nobres, devido à morosidade no processo de compras e reposição de peças.

Mesmo (e lamentavelmente…) movido à tragédias como no recente caso de Santa Maria – RS, o nosso poder público não aprende, não investe e NÃO DÁ EXEMPLO.

Até quando???

 

Sobre Alexandre Fontes

Alexandre Fontes é formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção pela Faculdade de Engenharia Industrial FEI, além de pós-graduado em Refrigeração & Ar Condicionado pela mesma entidade. Desde 1987, atua na implantação, na gestão e na auditoria técnica de contratos e processos de manutenção. É professor da cadeira "Comissionamento, Medição & Verificação" no MBA - Construções Sustentáveis (UNICID / INBEC), professor na cadeira "Gestão da Operação & Manutenção" pela FDTE (USP) / CORENET e professor da cadeira "Operação & Manutenção Predial" no curso de Pós Graduação em Avaliação e Perícias de Engenharia pelo IBAPE / MACKENZIE. Desde 2001, atua como consultor em engenharia de operação e manutenção.
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